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18 junho 2020

A BÌBLIA ERROU!!! SERÁ??

       

INERRÂNCIA BÍBLICA: PODEMOS CONFIAR NA BÍBLIA?

Quando você abre a Bíblia, provavelmente parte de uma convicção fundamental: está diante da Palavra de Deus. Mas surge uma pergunta importante: o que significa dizer que a Bíblia é inspirada por Deus? Significa que cada palavra foi ditada por Deus? Significa que os escritores bíblicos simplesmente registraram pensamentos humanos sobre Deus? Ou significa que Deus revelou sua mensagem por meio de homens que escreveram utilizando sua própria linguagem, conhecimento, experiência e contexto? Essa questão está diretamente relacionada ao debate sobre a inerrância bíblica.

Durante muitos séculos, os cristãos reconheceram a autoridade das Escrituras sem necessariamente formular essa crença usando a palavra “inerrância”. A discussão ganhou força especialmente a partir do século XIX, quando diferentes correntes de crítica bíblica passaram a questionar a origem, a composição e a confiabilidade das Escrituras. Como você deve reagir diante dessas questões? Antes de aceitar qualquer definição de inerrância, precisamos voltar à própria Bíblia e perguntar: o que ela diz sobre sua origem, sua autoridade e sua finalidade?

O que significa inerrância bíblica?

A palavra “inerrância” significa, em sentido amplo, ausência de erro. Mas existem diferentes maneiras de compreender esse conceito. Por isso, é importante distinguir pelo menos duas posições bastante conhecidas: a inerrância absoluta e a inerrância limitada.

Inerrância absoluta

Se você adota a posição da inerrância absoluta, entende que a Bíblia, em seus manuscritos originais, é totalmente livre de erros em tudo aquilo que afirma. Nessa perspectiva, a Bíblia seria correta não apenas em questões de fé e salvação, mas também em suas afirmações relacionadas à história, geografia, cronologia, astronomia, ciência e qualquer outro assunto sobre o qual faça uma afirmação.

Para os defensores dessa posição, a autoridade da Bíblia está diretamente ligada à sua completa ausência de erros. O raciocínio é simples: se a Bíblia pudesse apresentar erros em assuntos aparentemente secundários, como poderíamos ter certeza de que ela está correta quando fala sobre assuntos espirituais? Por isso, alguns entendem que negar a inerrância absoluta comprometeria a própria autoridade das Escrituras.

Mas será que essa conclusão é necessariamente exigida pela Bíblia?

Inerrância limitada

Existe outra posição conhecida como inerrância limitada. Segundo essa perspectiva, a inspiração divina está relacionada principalmente àquilo que Deus deseja revelar para nossa salvação, fé e vida prática. Nessa compreensão, a Bíblia não precisaria ser considerada inerrante em absolutamente todas as informações históricas, científicas ou culturais para continuar sendo confiável naquilo que ensina sobre Deus, pecado, salvação, fé e vida cristã.

Aqui surge uma questão fundamental: a Bíblia afirma que é inerrante em absolutamente todos os seus detalhes, ou afirma algo diferente sobre sua inspiração e finalidade? Para responder, precisamos examinar a própria Escritura.

A inspiração das Escrituras

Paulo escreveu: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça.” (2 Timóteo 3:16). Observe o que o texto realmente afirma. Ele diz que a Escritura é inspirada por Deus. Também explica sua finalidade: ensinar, repreender, corrigir e educar. No versículo seguinte, Paulo acrescenta: “A fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3:17). Portanto, quando você pergunta qual é a finalidade da Escritura, o próprio texto responde: ela prepara o ser humano para viver diante de Deus.

Pedro acrescenta outra informação importante: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21). Aqui encontramos dois elementos. De um lado, Deus. De outro, homens. Os homens falaram, mas falaram da parte de Deus e foram movidos pelo Espírito Santo. Isso nos conduz ao conceito de uma Escritura que possui uma dimensão divina e uma dimensão humana.

A Escritura é divina e humana

Se você observar cuidadosamente os livros bíblicos, perceberá que seus autores possuem estilos diferentes. Lucas escreve de maneira diferente de João. Paulo escreve de maneira diferente de Pedro. Os livros poéticos possuem características diferentes dos livros históricos. Os profetas possuem uma linguagem própria. Os Evangelhos também apresentam diferentes formas de organizar os acontecimentos.

Isso não significa que a Bíblia seja simplesmente uma coleção de opiniões humanas. A própria Bíblia afirma que seus escritores falaram “da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). Mas também não significa que os escritores deixaram de ser seres humanos.

Lucas, por exemplo, explica ao leitor como trabalhou na elaboração de seu Evangelho: “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem.” (Lucas 1:1-3)

Perceba a linguagem utilizada por Lucas. Ele fala de testemunhas oculares. Fala de informações que foram transmitidas. Fala de investigação. Fala de escrever uma exposição em ordem. Isso demonstra participação humana na produção do relato. Ao mesmo tempo, isso não contradiz a afirmação de que a Escritura é inspirada por Deus.

A humanidade presente nas Escrituras

Você também pode perceber características humanas na Bíblia quando observa seus diferentes gêneros literários, estilos e formas de expressão. Os escritores bíblicos registraram acontecimentos históricos, genealogias, poesias, cânticos, profecias, cartas e relatos pessoais.

Os Salmos, por exemplo, expressam emoções humanas profundas. Veja o Salmo 137: “Filha de Babilônia, que hás de ser destruída! Feliz aquele que te der o pago do que nos fizeste a nós! Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra!” (Salmo 137:8-9).

O texto registra a dor, a indignação e o sofrimento de pessoas que haviam sido levadas para o cativeiro. A Bíblia não esconde emoções humanas. Ela registra lágrimas, medo, tristeza, indignação, arrependimento, esperança e alegria. Isso faz parte da própria maneira como Deus escolheu comunicar sua mensagem através da história humana.

A divindade das Escrituras

Ao mesmo tempo, existe uma unidade extraordinária na mensagem bíblica. Os livros foram escritos em diferentes períodos, por diferentes autores, em diferentes circunstâncias e utilizando diferentes gêneros literários. Apesar disso, existe uma grande linha temática que atravessa as Escrituras: criação, queda, promessa, redenção e restauração.

Desde Gênesis até Apocalipse, encontramos a história do relacionamento de Deus com a humanidade e o desenvolvimento do plano da redenção. O próprio Jesus ensinou que as Escrituras apontavam para Ele: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.” (João 5:39).

Depois de sua ressurreição, Jesus explicou aos discípulos: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (Lucas 24:27). Portanto, existe uma unidade central na Bíblia: Cristo está no centro da mensagem das Escrituras.

A finalidade da Bíblia

Isso nos ajuda a compreender uma questão importante no debate sobre a inerrância. Qual é o propósito principal da Bíblia? Ela foi dada para funcionar como um manual técnico de astronomia? Como um tratado científico? Como uma enciclopédia de geografia? Como um livro de cronologia?

Não. A própria Bíblia apresenta sua finalidade de maneira diferente. Paulo diz que as Escrituras tornam o ser humano “sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus”. “Desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.” (2 Timóteo 3:15).

Isso não significa que a Bíblia não possa fazer afirmações históricas ou relacionadas ao mundo físico. Ela certamente faz. A questão é outra: a principal finalidade das Escrituras é revelar o caminho da salvação e conduzir o ser humano a Deus.

Primeira objeção à inerrância absoluta: os escritores participaram

Existe uma primeira dificuldade quando alguém tenta definir a inerrância absoluta. Os autores bíblicos participaram efetivamente da produção de seus escritos. Lucas investigou acontecimentos e consultou testemunhas (Lucas 1:1-3). João escreveu aquilo que havia visto, ouvido e tocado: “O que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam.” (1 João 1:1).

Paulo escreveu cartas para situações específicas das igrejas. Os autores dos livros históricos registraram acontecimentos relacionados à história de Israel. A Bíblia, portanto, não apresenta seus escritores como máquinas que simplesmente reproduziram palavras. Eles eram homens reais, vivendo em épocas reais, escrevendo para pessoas reais.

Ao mesmo tempo, Pedro afirma que esses homens falaram “da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. A Bíblia apresenta, portanto, uma combinação entre participação humana e direção divina.

Segunda objeção: os relatos dos Evangelhos

Outra questão aparece quando comparamos os relatos dos Evangelhos. Existem acontecimentos que são narrados com diferenças de detalhes. Por exemplo, os relatos da negação de Pedro apresentam diferenças na maneira como os acontecimentos são descritos.

Mateus registra: “E, logo, cantou o galo.” (Mateus 26:74). Marcos registra: “E logo, pela segunda vez, cantou o galo.” (Marcos 14:72). Lucas registra: “E, imediatamente, enquanto ele ainda falava, cantou o galo.” (Lucas 22:60). João também registra o anúncio de Jesus: “Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.” (João 13:38).

Esses relatos devem ser analisados cuidadosamente. Não é necessário presumir imediatamente que qualquer diferença de descrição destrói a confiabilidade do testemunho. Por outro lado, também não devemos criar explicações extremamente complexas apenas para eliminar toda diferença existente entre os relatos.

Os Evangelhos podem apresentar diferentes perspectivas de acontecimentos reais. A pergunta importante é: essas diferenças anulam a mensagem central que os quatro Evangelhos apresentam? Os quatro testemunham que Pedro negou Jesus e que a palavra de Cristo sobre sua negação se cumpriu.

Terceira objeção: a função principal da Escritura

Outro ponto precisa ser considerado. Quando você lê a Bíblia, precisa perguntar qual é o propósito do texto. A Escritura foi dada para revelar Deus, revelar o problema do pecado, apresentar o plano da redenção e conduzir o ser humano à fé.

Paulo afirma: “As sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.” (2 Timóteo 3:15).

A Bíblia também revela a condição humana: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.” (Romanos 3:23). Apresenta a solução: “Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” (Romanos 3:24). E apresenta a esperança: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

Esse é o centro da mensagem bíblica.

Quarta objeção: a Bíblia afirma inspiração, mas afirma inerrância absoluta?

Aqui chegamos ao ponto central. A Bíblia afirma claramente que a Escritura é inspirada por Deus. “Toda a Escritura é inspirada por Deus.” (2 Timóteo 3:16). A Bíblia afirma que homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo: “Homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21).

Mas onde a Bíblia afirma, explicitamente, que todos os seus detalhes históricos, científicos, cronológicos e geográficos são absolutamente livres de qualquer possibilidade de erro?

Essa é uma pergunta que precisa ser feita com honestidade. Não devemos simplesmente colocar na Bíblia uma definição que ela mesma não apresenta. Ao mesmo tempo, também não devemos usar qualquer dificuldade textual como motivo para abandonar a autoridade das Escrituras.

Precisamos permitir que a própria Bíblia estabeleça os limites de suas afirmações.

A preservação da Palavra

Existe ainda outra questão importante: a transmissão do texto bíblico. A Bíblia foi copiada e transmitida ao longo de gerações. Isso significa que precisamos distinguir entre os autógrafos originais, os manuscritos posteriormente copiados e as traduções que chegaram até nós.

Mesmo quando existem diferenças entre manuscritos, isso não significa automaticamente que a mensagem bíblica tenha sido perdida. A própria Bíblia apresenta a Palavra de Deus como permanente: “Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.” (Isaías 40:8).

Pedro repete: “A palavra do Senhor, porém, permanece eternamente.” (1 Pedro 1:25). Portanto, a existência de uma história de transmissão textual não elimina a importância ou a autoridade da Palavra.

A Bíblia deve ser examinada

A própria Bíblia incentiva o exame cuidadoso das Escrituras. Os bereanos foram elogiados porque examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo que Paulo ensinava estava de acordo com elas: “Examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” (Atos 17:11).

Isso é significativo. A fé bíblica não exige que você abandone o exame. Pelo contrário, você é convidado a estudar. Paulo aconselhou: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15).

A pergunta, portanto, não deve ser simplesmente: “Eu consigo explicar todas as dificuldades da Bíblia?” Uma pergunta mais importante é: “Estou permitindo que a própria Bíblia determine aquilo que devo crer?”

Não devemos adorar o Livro, mas aquele para quem ele aponta

Existe ainda uma distinção fundamental. A Bíblia é a Palavra de Deus e deve ser recebida com reverência. Mas o próprio Jesus advertiu que alguém poderia estudar as Escrituras e, ainda assim, não ir a Ele.

Jesus disse: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim; contudo, não quereis vir a mim para terdes vida.” (João 5:39-40).

Essa declaração é extremamente importante. Você pode conhecer o texto e não conhecer aquele para quem o texto aponta. Pode conhecer versículos e não conhecer Cristo. Pode defender a Bíblia e, ainda assim, deixar de viver a mensagem que ela apresenta.

A Bíblia não foi dada para ocupar o lugar de Cristo. Ela aponta para Cristo. João explicou o propósito de seu registro: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (João 20:31).

Conclusão

A discussão sobre a inerrância bíblica não deve nos levar a dois extremos. De um lado, não devemos reduzir a Bíblia a um simples produto humano, ignorando seu próprio testemunho de que ela é inspirada por Deus. De outro, também precisamos ter cuidado para não impor às Escrituras uma definição de inerrância que vá além daquilo que a própria Bíblia afirma.

A Bíblia apresenta uma realidade extraordinária. Deus falou. Homens escreveram. O Espírito Santo esteve envolvido. A mensagem foi transmitida em linguagem humana. As Escrituras testemunham de Cristo. E seu propósito está diretamente relacionado à salvação.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus.” (2 Timóteo 3:16). “Homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21). “A tua palavra é a verdade.” (João 17:17). “A palavra do Senhor, porém, permanece eternamente.” (1 Pedro 1:25). E, acima de tudo: “São elas mesmas que testificam de mim.” (João 5:39).

Portanto, quando você estudar a inerrância bíblica, não comece tentando proteger uma teoria. Comece ouvindo o que a própria Bíblia diz sobre si mesma. Ela é inspirada por Deus. Ela revela a verdade. Ela conduz à salvação. Ela testemunha de Cristo. E seu objetivo não é fazer você simplesmente admirar um livro, mas levá-lo a conhecer, confiar e seguir Jesus Cristo.

“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (João 17:3)

Fonte Bibliografica:
BACCHIOCCHI, Samuele. Inerrância Bíblica.
APOLINÁRIO, Pedro. História do Texto Bíblico: Crítica Textual. 4. ed. São Paulo, 1990.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada (ARA). Sociedade Bíblica do Brasil.

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